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Luiz Carlos D. Formiga

Entrevista concedida em Nov/2001

Biomédico com Doutorado em Microbiologia e Imunologia. Professor Universitário, palestrante e articulista Espirita.

A Jornada: Você vem de uma família Espírita? Como foi seu início no Espiritismo? Há quanto tempo?

Luiz: Sou neto de espíritas, mas foi nos anos 60, em reuniões práticas, que descobri minha incompetência mediúnica.

 

A Jornada: Qual é o seu envolvimento com o movimento Espírita?

Luiz: Problemas diversos nos levaram a um modesto envolvimento. No momento sou um dos coordenadores do Núcleo Espírita Universitário. Fazemos algumas palestras à noite. Como minha mulher e meus filhos são espíritas os fins de semana também são utilizados com relativa facilidade.

 

A Jornada: Possui algum tipo de mediunidade? Se sim, como lidou com ela no inicio?

Luiz: Sobre mediunidade, kardec é quem oferece a explicação mais simples e clara: "é uma faculdade humana". Como mediunidade é fatalidade evolutiva, no meu caso é 1% de inspiração e 99% de transpiração.

 

A Jornada: Possui Livros publicados?

Luiz: Com a epidemia da SIDA alguns acadêmicos espíritas me perguntavam sobre a doença. Por isso escrevemos artigos no Jornal Espírita, SP, no início dos anos 90. Posteriormente, o Presidente do Centro Espírita Leon Denis nos perguntou se poderíamos transformá-los num livro. Seria um registro do momento histórico. Nasceu "Dores, Valores, Tabus e Preconceitos", edições CELD.
O Jornal Brasileiro de Enfermagem, dezembro de 1996, publicou uma nota e num trecho diz assim: O livro discute a existência ou não da vida após a morte, a doutrina das vidas sucessivas, tendo como pano de fundo as doenças que deixam estigmas. Comenta a posição da Doutrina dos Espíritos diante da Universidade dominada pelas teorias materialistas. Entendendo que somos todos, sem exceção, pacientes terminais "sem hora marcada", inicia uma discussão sobre a eutanásia, resgatando idéias para uma declaração dos direitos do paciente terminal.
A aparente injustiça da Justiça Divina com as crianças, que já nascem portadoras do vírus da Aids, fez com que o autor estudasse a questão do "Sexo Seguro", as chamadas "Opções Sexuais" e a melhor maneira de se prevenir doenças sexualmente transmissíveis.
Alguns espíritas estudiosos da dependência química me pediram para colaborar no livro "As Drogas e Suas Conseqüências", editora Fonte Viva, BH.MG.

N. do S.: Veja os Livros de Luiz Carlos Formiga

 

A Jornada: Você está trabalhando em algum livro no momento? Pode nos adiantar algo?

Luiz: Está no prelo outro livro sobre dependência química, onde tenho pequena participação.

 

A Jornada: Qual a sua atividade profissional?

Luiz: Professor Universitário. Embora possua tempo para aposentadoria, alguns projetos de pesquisa e o projeto de divulgação da Doutrina Espírita no ambiente universitário, me fazem permanecer.

 

A Jornada: Como concilia a parte profissional com o Espiritismo? Há conflitos?

Luiz: Não. Nas universidades usamos apenas a hora do almoço e, eventualmente, horário após o término do expediente.

 

A Jornada: Sabemos que ainda há muito preconceito e desinformação a respeito do Espiritismo. Isto já refletiu em sua atividade profissional?

Luiz: Não. Materialistas e incrédulos apenas me olham com alguma desconfiança.

 

A Jornada: Espiritismo é religião?

Luiz: Até no dicionário a palavra religião é de difícil compreensão. Espiritismo é um neologismo, necessário para explicar uma nova ordem de idéias apresentada em "O Livro dos Espíritos". Nele encontramos uma filosofia de caráter científico e uma ciência de conseqüências religiosas. Oferecendo uma filosofia existencial religa a criatura ao Criador. A compreensão pode ser ampliada com reflexão profunda usando o Capítulo II do Livro Terceiro, Leis Morais, Lei de Adoração de "O Livro dos Espíritos".


A Jornada: Como você vê o crescimento da Doutrina Espírita no Brasil e no Mundo?

Luiz: Kardec estava convicto de que os princípios do Espiritismo estariam aceitos por toda a humanidade em cem anos. Os interesses contrários são inúmeros e a ignorância não é privilégio de brasileiros.

 

A Jornada: Qual a maior dificuldade que a Doutrina Espírita enfrenta para sua aceitação?

Luiz: A população reencarnada é heterogênea. Diversos comportamentos podem explicar essa dificuldade. Para os materialistas o homem é simples máquina. Os incrédulos de má-vontade não querem ver perturbada a inclinação que sentem para os gozos materiais. Outros condenam o Espiritismo por motivos de interesse pessoal, por má fé ou por escrúpulos religiosos. Os incrédulos por decepções passaram de uma confiança exagerada à incredulidade. Originam-se dos estudos incompletos e da falta de experiência. Os espiritualistas possuem vaga intuição das idéias espíritas. O Espiritismo é, para alguns experimentadores, uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos. Outros vêem mais do que fatos compreendem-lhe a parte filosófica, admiram a moral daí decorrente, mas não a praticam. Há, ainda, os que depositam confiança cega e pueril e aceitam sem verificação diversos absurdos. Estes são iludidos por homens e por Espíritos mistificadores. Como você percebeu, o Codificador já havia anotado as dificuldades.

 

A Jornada: Nós espíritas somos muito questionados a respeito da Doutrina Espírita e constantemente somos provocados a justificar nossa crença em confronto com a Bíblia. Na sua opinião, devemos entrar nesse tipo de debate para defender a Doutrina Espírita ou não?

Luiz: É relativo. Um "e-mail" nas vésperas do Terceiro Congresso Espírita Mundial, outubro 2001, nos fez responder a uma pergunta, no foro, colocada no portal www.terra.com.gt, A questão era: "¿Estás de acuerdo con que se celebre en Guatemala la Convención Mundial de Brujos?" Confesso que fiquei com medo da omissão ser considerada crime de lesa-humanidade. Eu tinha razão, a nossa indignação propiciou uma mudança de atitude nos debatedores.

 

A Jornada: O Brasil é um país onde a grande maioria é Católica ou Evangélica, mas algumas pesquisas indicam que grande parte da população não Espírita acredita em reencarnação. Como podemos interpretar isto?

Luiz: Reencarnação é Lei Divina ou Natural. E onde está escrita a lei de Deus? Na consciência do homem, portanto não importa a religião que se professa, importa é o nível de consciência.

 

A Jornada: Segundo Emmanuel a maior caridade que podemos fazer para a Doutrina Espírita é a sua divulgação. O que podemos fazer para contribuir neste sentido?

Luiz: "Bem feito é melhor que bem dito".

 

A Jornada: Em sua opinião, o fato de Jesus ter usado parábolas para ministrar seus ensinamentos e não ter escrito nada, ajudou ou prejudicou o entendimento do Cristianismo? Se tivesse escrito, conforme fez Kardec com a codificação Espírita, reduziria as multidivisões futuras e melhoraria o entendimento?

Luiz: "Tenho muitas coisas para vos dizer, mas vós não podeis suportar agora" (João, 16:12).
Por que Kardec pôde explicar e Jesus não pôde?

- As revelações são dadas ao mundo, progressivamente, de acordo com o grau de assimilação da humanidade.

"Assim como a Ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual. Ora, como este último princípio é uma das forças da Natureza, a reagir incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, segue-se que o conhecimento de um não pode estar completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria sido abortado, como tudo quanto surge antes do tempo." (A Gênese, Cap. I, item 16)

"Quando vier o Espírito de Verdade ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas futuras, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse" (João, 14:26 e 16: 13).

Mas, Jesus, o Mestre dos Mestres, pedagogo ainda não superado, conhecia a técnica perfeita e nos lecionou com perfeição.

As parábolas já eram conhecidas no Velho Testamento e nos livros sagrados do Oriente, mas Jesus as imortalizou.

São histórias simbólicas, comparativas, que embora utilizem reálias, encerram um conteúdo moral que precisa ser buscado. O próprio Jesus ensinou como fazer isso, explicando a parábola do semeador (Mateus, 13:18-23) e do Joio e do Trigo (Mateus, 13: 36-43).

Quais as vantagens de sua utilização? 1. Por serem simbólicas, sofreram menos alterações ao longo do tempo, pelas manipulações e ou traduções; 2. Por terem enredo, interessam a todas as camadas sociais; prendem o ouvinte; impressionam, instigam o raciocínio e não ferem, pois não são endereçadas a ninguém em particular, mas a todos, em geral; 3. Facilitam a assimilação, pois Jesus utilizou-se de reálias usadas pelo homem, no seu afã diário. Esses símbolos podem ser transferidos para qualquer época, daí sua eternidade; 4. São fáceis de memorizar, pela "aparente" simplicidade e boas de reproduzir.

Se quisermos entendê-las, em toda a sua profundidade, devemos seguir o conselho de Paulo: "A letra mata, mas o espírito vivifica." (Paulo, II Coríntios, 3:6).

 

A Jornada: Que obras considera obrigatórias na biblioteca espírita?

Luiz: Devemos examinar todas, mas existe uma prioridade que é estudar as Obras Básicas com o mesmo cuidado com que o Codificador estudou os ensinos morais do Cristo.

 

A Jornada: Na sua opinião, qual a maior herança que podemos deixar a nossos filhos?

Luiz: Somos arquitetos do próprio destino. A herança é conquista pessoal. Não há injustiça na hora do inventário. No entanto, percebemos que pais atualizados e atuantes deixam boas heranças. Ficará com a melhor parte, aquele filho que não se contentar em admirar a ética, mas a colocar em prática. Por isso os espíritos superiores disseram que devemos considerar a paternidade como missão.

 

A Jornada: Considerações finais?

Luiz: Na era da qualidade total temos instrumentos para avaliar heranças. "A melhor doutrina é aquela que satisfaz ao coração e à razão e que mais elementos possui para conduzir os homens ao bem".

Luiz Carlos D. Formiga

    

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