ENXAQUECA
Iso Jorge Teixeira
Propomo-nos
a estudar Psico(pato)logia e Psiquiatria com a participação do leitor do JE (Jornal
Espírita),
com o objetivo de esclarecê-lo sobre saúde e doença mental e trocar idéias sobre os
pontos controversos, à luz dos ensinamentos dos Espíritos Superiores, codificados por
Allan Kardec e tentar, portanto, a prestação de serviço e a interatividade.
Pergunta: "Prezado Dr. Iso.
Saudações!
Estou com 37 anos e desde os 25 sofro de fortes enxaquecas. Já procurei vários
tratamentos com neurologistas e através do eletroencefalograma não foi constatada nenhuma anormalidade.
Será um problema espiritual ou cármico?
Por favor, responda-me!
Atenciosamente"
M.J. M.
Bom Jardim S. José do Rio Preto SP
Abril / 2000
Após uma resposta preliminar em que pedíamos que a leitora complementasse sua(s)
pergunta(s), que pudessem ser publicadas, ela complementou:
"Prezado Dr. Iso .Saudações!
Fiquei muito honrada com sua carta. Desde já agradeço sua atenção. Muito
obrigada!
Quanto a suas perguntas sobre o meu problema de enxaqueca, tentarei descrever,
nesta carta, o melhor possível:
1- As
crises iniciam-se pela manhã, independente de tensão emocional. Eu acordo com uma dor do
lado esquerdo da cabeça (têmporas), seguida de náuseas, falta de apetite e
indisposição. Tendo mesmo de ficar acamada por até 3 dias ou mais. Após essa crise, eu
tenho uma melhora durante 2 dias aproximadamente, e a dor recomeça do lado direito, com
os mesmos sintomas. Enquanto não doer os dois lados da cabeça sei que não vou melhorar; 2- As
crises são mensais; 3- Costumo
usar medicamentos convencionais, tais como [a leitora enumera uma série de nomes
comerciais que não mencionamos por motivos óbvios]. Sendo que por várias vezes não
surtem efeito, tendo que recorrer a injeção.
Obtive uma pequena melhora através de um preventivo à base de piridoxina,
nefaloxona sódico e metropolol (fórmula manipulada).
Recentemente (13/4) consultei um iridologista, cujo diagnóstico foi o seguinte:
intestino "preguiçoso" de fato, na infância eu tomava leite de
magnésia a vesícula produz pouca bílis, e uma pequena inflamação no fígado.
Donde vem acarretar as dores de cabeça com vômito de bílis. Ele receitou-me um
concentrado de plantas medicinais (salsa parrilha, ipê roxo, camomila, carqueja, etc.
para desintoxicar; mais ginkgo biloba (melhora circulação cerebral). Ambos são produtos
fitoterápicos. Ainda é cedo para dizer se obtive melhora com estes produtos. 4- Há
casos na família sim. Porém menos graves; 5- Espiritualmente,
sou tranqüila, durmo bem, não guardo ressentimentos, gosto de música, cinema, leitura,
adoro passeios ao ar livre, praia e tudo que está relacionado com a natureza.
Costumo ficar ansiosa enquanto aguardo compromissos futuros ou quando minhas
tarefas diárias estão desorganizadas. Sou espírita kardecista, na luta constante de
melhorar-me como pessoa, praticar a caridade, entendendo melhor o próximo, e todo esse
mundo material que nos rodeia sem deixar-me envolver por ele Um abraço Maria.
Resposta: Caríssima leitora, nada em
suas cartas sugere que sua problemática seja, originariamente, de natureza
"espiritual". Se ,de fato, a Sra. sofre de enxaqueca, e sua descrição é sugestiva desse
distúrbio, trata-se de um transtorno orgânico (embora
não conhecido suficientemente) dos vasos
sangüíneos intracranianos, isto é, nada
fala a favor de obsessão.
Existem centenas e centenas de causas de dor de cabeça (cefaléia) e o fato do
eletroencefalograma (EEG) não apresentar
anormalidade, não significa, necessariamente,
que o problema seja "espiritual".
Não devemos atribuir as causas das nossas doenças a fatores espirituais sem antes afastarmos as prováveis
causas orgânicas ou psicológicas. Assim, a hipertensão arterial, a osteoartrite
cervical (do pescoço), tumores cerebrais, etc... são causas orgânicas de cefaléia; a tensão emocional,
conflitos afetivos, são causas psicológicas
de cefaléia e a enxaqueca é de causa orgânica, embora ainda não suficientemente
conhecida, como referimos. Caracterização
da ENXAQUECA: a enxaqueca caracteriza-se por dores de cabeça
(cefaléias) primárias, recorrentes, muitas vezes intensas e em geral pulsáteis,
começando em geral de forma unilateral e em geral associadas a mal-estar, náuseas e/ou
vômitos e fotofobia. A dor é paroxística (isto é, atinge o auge e se repete).
Foi descrita por GOWERS , com a cefaléia sendo o fato mais comum, sendo uma dor
unilateral na cabeça, gerou o termo "hemicrania", daí o termo
"emigranea", "megrane" e "megrine" do que originou
"migraine".
O distúrbio inicia-se, com freqüência, na infância, afeta mais as mulheres e
tem ocorrência familiar (cf. Medicina Interna Básica CECIL. ANDREOLI,
THOMAS E.; BENNET, J. CLAUDE; CARPENTER, CHARLES C.J.; PLUM, FRED; SMITH, LLOYD H. Jr.,
Ed. Guanabara Koogan S. A ., 3 ed., Rio de Janeiro, 1994, p. 659).
Os vasos sangüíneos intracranianos, extracerebrais, são os afetados, segundo os
autores acima.
Portanto, caríssima leitora, embora seja
mais comum o início da enxaqueca antes dos 25 anos, a ocorrência familiar, além da
clínica descrita, tudo deve ser bem avaliado pelo médico para o diagnóstico rigoroso.
Para informação do leitor em geral,
há uma série de diferenças entre a enxaqueca e a cefaléia de tipo tensional (psicológica),
vejamos algumas: Diferenças entre Enxaqueca e Cefaléia de tipo tensional
(cf.
adaptação de Medicina Interna Básica (CECIL), op.
cit. p. 658 e Revista Brasileira de Medicina (RBM)- Como Diagnosticar e tratar
(Enxaqueca). ELIOVA ZUKERMAN (Prof. Adjunto
de Neurologia da Escola Paulista de Medicina (EPM0 Unifesp), MÁRIO FERNANDO PIETRO
PERES, pós-graduando da EPM Unidesp e ALEXANDRE OTTONI KAUP, pós-graduando da EPM
Unifesp. Vol. 56, Ed. especial, dezembro/99).
Caríssimos leitores, se o seu problema for provocado por tensão emocional, os analgésicos não terão
utilidade e o tratamento seria basicamente psicoterápico,
de preferência por psiquiatra espírita, que se pressupõe ter uma visão mais abrangente
do ser humano.
E é importante salientar que as chamadas "terapias
alternativas" ainda não atingiram a cientificidade
desejada e a enxaqueca nada tem a ver com
problemas biliares, hepáticos, etc... Se uma enxaqueca melhorar com medicação
desintoxicante hepática, provavelmente, o diagnóstico deve ser revisto. Bases
genéticas da Enxaqueca
Segundo
a Revista Brasileira de Medicina (op. cit. p. 4):
"...um número considerável de pacientes refere ter parentes próximos que
têm ou tiveram crises de enxaqueca.
Vários trabalhos sugerem que a enxaqueca é geneticamente transmitida, a ponto de
considerar história familiar de enxaqueca como um pré-requisito para o diagnóstico.
A incidência nas famílias apontam uma transmissão familiar do tipo
dominante"(op.
cit., p. 4).
A leitora Maria José informa casos de enxaqueca na família, o que é concordante
com as informações acima... Aspetos
sociais da Enxaqueca
Segundo
os autores da RBM (op. cit. p. 2), "a enxaqueca causa problemas na vida diária do
paciente e para a Sociedade como um todo. Considerando que há uma prevalência elevada de
enxaquecosos na população e que grande parte deles tem pelo menos 3 crises por mês e
sabendo-se que 30% das crises são intensas e exigem que o paciente abandone suas
atividades, quer seja de trabalho ou de lazer, podemos imaginar a dimensão do prejuízo
que a enxaqueca determina. Nos Estados Unidos cerca de um bilhão de dólares por ano são
perdidos em razão da baixa produtividade determinada pela enxaqueca." E mais
adiante os autores complementam:
"Um levantamento recente na Dinamarca em
mil residentes de Copenhagen, mostram que a prevalência num período de um ano foi de 6%
em homens e 15% em mulheres. Dados semelhantes foram obtidos nos EUA e na França" (op.
cit., p. 2).
Estes dados mostram a importância estatística e social da enxaqueca e como a
doença é muitas vezes incapacitante. Epílogo
Caríssima
leitora, procure estabelecer com seu médico o diagnóstico de certeza. Se de fato a Sra.
sofre de enxaqueca, procure fazer o tratamento preventivo das crises, existem medicamentos
para isso...
Tenha muita resignação e quem sabe se as crises dolorosas são dadas para testar
sua paciência, como prova... Obviamente, não devemos ser masoquistas, mas a Providência
Divina tem desígnios imperscrutáveis...
Gostaríamos de enfatizar que o uso diário, excessivo, de analgésicos pode levar
à dependência e a instalação de cefaléia crônica diária; por isso, o tratamento
deve ser feito criteriosamente e com profissional competente.
Não desespere caríssima Maria José, a dor é um dos artifícios de que se vale a
Natureza para depurar o nosso Espírito. Seja resignada e o que se afigura como um Mal,
poderá ser o ensejo para o seu crescimento espiritual e de sua família. Talvez, este seu
compromisso reencarnatório ("carma").
Utilize a prece (para ter forças para enfrentar
a dor sem murmurar) e os passes para revigorar-se e os medicamentos como prevenção.
A confreira poderia argumentar que tem seguido o caminho do Bem e que isto poderia
isentá-la das tribulações da encarnação. A resposta à questão 133 de O Livro dos Espíritos Filosofia Espiritualista,
de ALLAN KARDEC é bem esclarecedora
neste aspecto:
"Todos são criados simples e ignorantes
e se instruem através das lutas e atribulações da vida corporal. Deus que é justo,
não pode fazer feliz a uns, sem penas e sem trabalhos, e por conseqüência, sem
mérito".
Continue
subindo sua "escada" como no sonho de Jacó (Gn 28,12), pois nela seu anjo
guardião lhe fortalecerá, até sua regeneração completa, objetivo de todos nós aqui
na Terra.
Confie em DEUS, sempre!
Iso
Jorge Teixeira Adaptação
do artigo publicado no Jornal Espírita (Órgão
da FEESP) na Coluna SAÚDE MENTAL, dezembro/2000, p. 7.
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